Um festival de cinema recebeu uma denúncia por email, acusando um realizador e produtor de comportamentos abusivos e violentos em contexto não profissional. Essa denúncia terá surgido após o anúncio público da programação de um filme do realizador no programa do festival. No dia em que a denúncia foi partilhada nas redes sociais, o festival emitiu um comunicado público anunciando a retirada do filme, bem como de outro projecto de uma realizadora, sob a qual não recai qualquer acusação, produzido pelo acusado.
Queremos, antes de mais, expressar a nossa solidariedade com todas as pessoas que tenham sofrido ou testemunhado situações de violência de qualquer tipo. Preocupa-nos a falta de confiança que os canais oficiais de denúncia tantas vezes inspiram, levando as pessoas a recorrer à exposição nas redes sociais ou à partilha de emails. Afirmamos o nosso compromisso com uma reflexão, e consequentes tomadas de acção, para que existam ferramentas próprias, justas e legais, permitindo que as vítimas de assédio e agressão encontrem um espaço seguro para as suas denúncias e justa protecção.
Em vez de ponderação, cuidado e protecção, o festival em questão emitiu um comunicado equívoco, levando o caso à comunicação social e permitindo um linchamento público. Tal atitude alertou-nos para as seguintes considerações:
1. Um filme é o resultado de um trabalho colectivo, do investimento e esforço de várias pessoas. Assim sendo, qual a legitimidade de um festival de cinema para retirar da sua programação o trabalho de todas essas pessoas, lançando sobre ele opróbrio e suspeitas que em nada lhes dizem respeito?
2. O problema cultural do assédio, da violência doméstica, laboral, de género, bem como de outras formas de violência sistematizadas e com base em assimetrias de poder, precisa de ser afrontado com o compromisso de todo o sector. Precisa também de rigor, precisão nas ferramentas usadas, nas decisões tomadas, e nas formas de comunicação das mesmas. Caso contrário, gera-se apenas uma cortina de fumo que descredibiliza as vítimas, protege agressores e potencialmente vitimiza pessoas inocentes.
3. Os festivais de cinema não possuem estas ferramentas. Não faz parte da sua missão, das suas competências, da formação dos seus trabalhadores e dirigentes. Enquanto sociedade, não lhes demos tal poder e tal responsabilidade, nem por eles foi solicitada.
4. A arte e a cultura não podem existir fora das regras da democracia e da ética. Estas não são entidades esfíngicas e estáticas. Elas podem ser transformadas e até podem ser destruídas. Depende de um trabalho colectivo. A condenação ao opróbrio e ostracismo são mecanismos que não podem ter lugar numa democracia. As organizações culturais exercem poder sobre artistas e as suas obras. Portanto, têm de o usar dentro das regras democráticas.
5. Por outro lado, se as leis e os mecanismos judiciais e jurídicos existentes são insuficientes, há que fazer, em primeira medida, esse investimento. Existem já associações e outras organizações que trabalham nesse sentido, mas com poucos meios e sem capacidade de apoio legal efectivo. Enquanto cidadãos todos nós podemos participar em tal luta. Enquanto comunidade profissional, cada um de nós pode contribuir, com conhecimento específico dos mecanismos de poder próprios do nosso trabalho e que podem gerar e ocultar situações abusivas.
Esta é uma reflexão que não queremos fechar. Apelamos por isso ao debate e compromisso, por parte dos festivais de cinema e restantes organizações de exibição e distribuição, sobre estas situações e os limites da legitimidade para sentenciar realizadores e filmes. Apelamos a uma análise transparente e com real impacto em medidas, por parte de todos nós, profissionais do cinema, acerca dos mecanismos de prevenção de assédio e abuso de qualquer tipo em locais de trabalho. Apelamos ainda à implicação do Instituto de Cinema e Audiovisual, bem como da tutela, na criação de canais de denúncia neutros, com ferramentas próprias de protecção das vítimas e que salvaguardem a presunção de inocência dos acusados.
10.05.2025
Subscritores (em actualização):
- Adriana Bolito, directora de som
- Alexander David, realizador e actor
- Amarante Abramovici, cineasta e programadora
- Armanda Carvalho, directora de som
- Ana Moreira, actriz
- Ana Padrão, actriz
- Ana Pinhão Moura, produtora
- Ana Sofia Martins, actriz
- Ana Viegas, assistente de realização e produção
- André Dias, professor
- André Gil Mata, realizador e produtor
- André Godinho, realizador e anotador
- Pedro M. Afonso, realizador e montador
- André Marques, argumentista e realizador
- André Principe, cineasta
- André Silva Santos, assistente de realização
- Andreia Bertini, colorista
- Ângela Cerveira, directora de produção
- António Câmara, produtor
- António M. Costa, programador
- António Pinhão Botelho, realizador
- Artur dos Reis, montador e coordenador de pós-produção
- Aya Koretzky, realizadora
- Bárbara Valentina, produtora
- Beatriz Batarda, actriz
- Bruno Cabral, realizador
- Bruno de Almeida, realizador
- Bruno Gonçalves, produtor
- Carla Bolito, actriz
- Carla Maciel, actriz
- Carlos Braga, realizador
- Carlos Lobo, realizador
- Carolina Ribeiro Ferreira, chefe de produção
- Catarina Almeida, distribuidaora
- Catarina Vasconcelos, realizadora
- Celeste Alves, coordenadora de produção
- Cíntia Gil, programadora de cinema
- Cláudia Alves, realizadora
- Cláudia Efe, actriz e música
- Claudia Ribeiro, realizadora e produtora
- Cláudia Varejão, realizadora
- Cláudio da Silva, actor
- Daniel Borga, realizador
- Daniel Souza Ferreira, montador
- Dario Oliveira, director do Porto Post Doc
- David Ferreira, realizador, montador e desempregado
- David Pinheiro Vicente, realizador
- Débora Pereira, comunicação
- Diana Andringa, jornalista e realizadora
- Diana Costa e Silva, actriz
- Diana Diegues, produtora
- Diana Policarpoo, artista
- Dídio Pestana, sonoplasta
- Diogo Allen, realizador e assistente de realização
- Diogo Bento, actor
- Diogo Vale, montador
- Edgar Medina, produtor
- Edgar Morais, actor e realizador
- Eduardo Brito, realizador e argumentista
- Elsa Ferreira, pós-produção de som
- Erik Bordeleau, investigador em cinema na Universidade NOVA
- Fátima Ribeiro, argumentista e realizadora
- Filipa César, realizadora
- Filipe Araújo, realizador e produtor
- Filipe Melo, realizador e músico
- Filipe Nunes Branco, cineasta e investigador
- Filomena Gigante, actriz
- Joana jardim Hintze Ribeiro Garrido, fotógrafa
- Francisco Botelho, realizador
- Francisco Janes, realizador e artista visual
- Francisco Moreira, montador
- Francisco Moura Relva, realizador
- Francisco Ramos, técnico de som
- Francisco Villa-Lobos, produtor
- Frederico Lobo, realizador e produtor
- Gabriel Abrantes, realizador e produtor
- Gonçalo Castelo Soares, realizador e director de fotografia
- Gonçalo Waddington, realizador e actor
- Guilherme Blanc, programador e investigador
- Gustavo Scofano, distribuidor
- Hélder Beja, director do Doclisboa e argumentista
- Helder Faria, anotador e realizador
- Henrique Fialho, produtor
- Hugo Azevedo, director de fotografia
- Hugo Ramos, coordenador de produção
- Inês Mestre, antropóloga
- Inês Sapeta Dias, realizadora
- Inês T. Alves, realizadora
- Iris Toivola Cayatte, actriz
- Isabel Abreu, actriz
- Isabel Machado, produtora
- Isabel Silva, produtora
- Ivan Castiñeiras, realizador
- Ivo M. Ferreira, realizador
- Joana Botelho, actriz e realizadora
- Joana Ferreira, produtora
- Joana Linda, realizadora
- Joana Linhares, assistente de realização
- Joana Lourenço, realizadora
- Joana Silva Fernandes, directora de fotografia
- João Braz, montador
- João Cabral, actor
- João Cândido Zacarias, realizador
- João Cysneiros Esteves, assistente de realização
- João Matos, produtor
- João Nicolau, realizador
- João Pedro Plácido, director de fotografia
- João Pedro Rodrigues, realizador
- João Pinhão, assistente de realização
- João Porto, assistente de imagem
- João Ramos, realizador
- João Rui Guerra da Mata, realizador e director de arte
- João Salgado, Realizador e Anotador
- Joaquina Chicau, advogada e produtora
- Jorge Cramez, realizador
- Jorge Ferreira da Costa, assistente de realização
- Jorge Quintela, realizador e director de fotografia
- José André, supervisor de efeitos especiais
- José António Marques, cenarista
- José Bértolo, professor
- José Pedro Penha, director de arte
- José Pedroso, assistente de imagem
- Júlia Alves, cineasta
- Laura Andrade, realizadora e secretária de produção
- Leonardo Amaral, cineasta
- Leonor Silveira, actriz
- Lucha d Orey, figurinista
- Luca D’Introno, programador de cinema e figurinista
- Luís Alves de Matos, realizador
- Luís Costa, realizador e produtor
- Luís Miguel Correia, realizador
- Luís Nunes, realizador
- Luís Urbano, produtor
- Luís Veloso Gonçalves, assistente de realização
- Luís Vieira Campos, realizador
- Luísa Homem, realizadora
- Manuel Mozos, realizador
- Manuel Pureza, realizador
- Marcelo Pereira, realizador
- Márcia Mansur, antropóloga e gestora cultural
- Marcio Laranjeira, realizador
- Marco Martins, realizador
- Margarida Cardoso, realizadora e argumentista
- Margarida Gil, realizadora
- Margarida Leitão, realizadora
- Margaux Dauby, realizadora
- Margot Rident, montadora
- Maria do Sameiro André, documentalista CP-MC
- Maria Gil, actriz
- Maria Inês Rodrigues, assistente de câmara
- Maria Joana Figueiredo, montadora
- Maria João Guardão, realizadora
- Maria João Mayer, produtora
- Maria João Pinho, actriz
- Maria Leite, actriz e empregada de mesa
- María Vera, agente de vendas
- Marie Cesari, assistente de guarda roupa
- Marina Estela Graça, realizadora
- Mario Gomes, film commissioner
- Margarida Rêgo, designer na área do cinema
- Marta Félix, actriz
- Marta Lança, editora do Buala
- Marta Leon, produtora
- Martim Baginha Cardoso, assistente de realização
- Matilde Silveira, produtora
- Maureen Fazendeiro, realizadora e argumentista
- Miguel Bonneville, artista
- Miguel Castro Caldas, argumentista
- Miguel Gomes, realizador
- Miguel Martins, re recording mixer
- Miguel Monteiro, actor
- Miguel Moraes Cabral, realizador e director de som
- Miguel O. Pinheiro, director de arte
- Miguel Perdigão, director de produção
- Miguel Ribeiro, programador cultural
- Naima Le Cesne, realizadora
- Nelson Araújo, professor e investigador de cinema
- Nevena Desivojevic, distribuidora
- Nuno Carvalho, pós-produção de som
- Nuno Lisboa, programador de cinema
- Octavio Espirito Santo, director de fotografia
- Olga Sancho, aderecista
- Olivier Blanc, director de som
- Patricia Almeida, produtora
- Patrícia Doria, figurinista
- Patrícia Neves Gomes, realizadora
- Patrícia Saramago, montadora
- Patrícia Vasconcelos, directora de casting
- Patrick Mendes, realizador
- Paula Oliveira, produtora
- Paula Szabo - directora de arte
- Paulo Abreu, realizador
- Paulo Américo, colorista
- Paulo Branco, produtor
- Paulo Guilherme, realizador
- Pedro Caiano, director de produção
- Paulo Carneiro, realizador e produtor
- Pedro Filipe Marques, realizador e montador
- Pedro Neves, realizador e produtor
- Pedro Peralta, realizador
- Pierre Primetens, realizador
- Rafael Matos - chefe eletrecista
- Raquel Castro, actriz e encenadora
- Raquel Da Silva, directora de produção, directora de casting
- Raquel Rocha Vieira, actriz
- Raul Domingues, realizador
- Renata Sancho, realizadora, montadora e produtora
- Rafael Gonçalves Cardoso, director e montador de som
- Rafael Morais, actor
- Ricardo Vieira Lisboa, programador do Indielisboa
- Rita Barbosa, argumentista e realizadora
- Rita Loureiro, actriz
- Rita Cabaço, actriz
- Rita Senra, artista visual e realizadora
- Rodrigo Areias, realizador e produtor
- Rodrigo Pedro, montador e programador de cinema
- Rosa Coutinho Cabral, realizadora
- Rui Branquinho, montador e colorista
- Rui Morisson, actor
- Rui Poças, director de fotografia
- Rui Xavier, director de fotografia
- Rute Moreira, assistente de imagem
- Sandra Faleiro, actriz
- Sandro Aguilar, realizador
- Salette Ramalho, gestora cultural
- Salomé Lamas, realizadora, artista visual, educadora
- Sérgio Tréfaut, realizador e produtor
- Silvia Grabowski, figurinista
- Sofia Leite, directora de arte
- Sofia Marques, actriz
- Sónia Luz, caracterizadora/maquilhadora
- Susana Nobre, realizadora
- Suzie Peterson, figurinista
- Telmo Churro, realizador, montador e argumentista
- Teresa Garcia, cineasta
- Teresa Madruga, actriz
- Thibault Louvrier, realizador
- Tiago Guedes, realizador
- Tiago Hespanha, realizador
- Tomás Baltazar, montador
- Vasco Araújo, artista plástico
- Vasco Costa, professor e produtor de cinema
- Vasco Pimentel, director de som
- Victor Gonçalves, actor
- Victória Guerra, actriz